Month: July 2014

Os Novos Contos de Fada

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Em 1959, os estúdios Disney lançaram “A Bela Adormecida” (Sleeping Beauty), uma versão contemporânea do conteúdo original de Charles Perrault, pai da literatura infantil, nascido no século XVII. Essa conhecida animação tem seu enredo resumido da seguinte forma na wikipédia:

“Em um reino distante, ao completar 16 anos, a princesa Aurora sofre uma terrível maldição da malvada bruxa Malévola ao espetar o dedo no fuso de uma roca. Ela cai em um sono profundo de 100 anos.

Mas as três fadas-madrinhas (Flora, Fauna e Primavera) descobrem uma forma de quebrar o feitiço: um beijo doce e verdadeiro de amor. Com Aurora adormecida, as fadas resolvem adormecer todo o reino. O príncipe Filipe, que é apaixonado por Aurora, munido de um escudo da virtude e da espada da verdade, combate e derrota Malévola e finalmente quebra o feitiço da princesa Aurora com um beijo de amor verdadeiro.”

Esses elementos predominaram nos contos de fada durante muito tempo, prevalecendo no nosso cotidiano. A luta entre o  bem e o mal consiste em um maniqueísmo clássico de nossa cultura, exposta em contos de fada e em outros tipos de histórias narrados em filmes, peças teatrais, livros, programas de rádio, novelas televisivas – em qualquer mídia de entretenimento, enfim. A figura da pureza, no caso, reside na bela princesa Aurora, injustamente amaldiçoada, que partilha de um fardo sem culpa alguma; ela é ajudada constantemente de forma eficaz por três bondosas fadas-madrinhas. Malévola é a bruxa má, corrompida, que quer, sabe-se lá a que preço, a destruição da princesa, mas o amor verdadeiro será responsável por colocar os planos da fada malvada a perder, e esse amor verdadeiro é simbolizado pelo príncipe encantado – que derrota o mal com sua espada justiceira. De acordo com esse conceito, existe o bem, existe o mal tentando se sobrepor ao bem e existe o amor verdadeiro simbolizado na figura de um jovem casal, que vence o mal.

Amada ou criticada, a Disney, para mim, parece regida pelos princípios culturais da sociedade vigente. Longe de se conservar ou de inovar, ela parece seguir o movimento, a corrente, o contingente cultural. Por isso, não é de se estranhar que, 55 anos após o lançamento da animação maniqueísta “A Bela Adormecida”, ela tenha lançado um longa que possa se contrapor a essa história, relatando o ponto de vista de Malévola, a fada má. O nome desse longa lançado em 2014 é “Malévola” (Maleficent).

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Malévola criança, antes de ser uma bruxa má.

Nessa versão, todos os valores são mudados; não existe mais o bem ou o  mal de forma isolada; todos os seres são ambivalentes e em constante mudança. O mal é representado pela dor, pelo sofrimento e pelo desejo insano e repentino de vingança que pode sempre mudar; o bem nem sempre é acompanhado por sensatez, pureza ou eficácia; e o amor verdadeiro não é simbolizado por um jovem casal. Malévola é mais do que uma fada corrompida; ela muda todo o tempo e carrega dentro de si tanto o ódio oriundo da dor quanto o mais lúcido e desinteressado amor. Ela representa a ambivalência de toda a humanidade.

Essa discrepância de um mesmo conto nas mãos de um mesmo estúdio em épocas distintas reflete uma mudança de valores mais palpável a cada geração. Ou seja: se filmes que rompem com esse maniqueísmo estão cada vez mais em voga, caindo nas graças do público, então é porque o público tem mudado. Os valores têm mudado. As pessoas não se contentam mais com uma história em que existe o bem e o mal separados, porque isso não corresponde à realidade – ninguém é, de fato, bom ou mau. E o mal é o bem mal-interpretado – é o sofrimento. É o fardo que se assume quando se sofre e do qual é possível sempre se desfazer.

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A dicotomia do bem contra o mal não é uma exclusividade cristã: o zoroastrismo persa, presente na atualidade em alguns povos, falou dele bem antes da existência do cristianismo; o bem era representado pelo deus Ormuz, e o mal, pelo deus Arimã. Muitas correntes filosóficas ou religiosas abordam essa dualidade; alguns a externalizam falando de Deus e do Diabo. Outros a inserem dentro de cada um de nós, sem uma fonte do mal absoluto.

Em vez de o bem vencer o mal, essas duas substâncias mesclam-se e digladiam-se dentro de uma mesma pessoa. Malévola é a fada que sofreu por amor e se corrompeu, mas, com o tempo, recupera-se do amor perdido depositando energias afetivas em outra pessoa, em outro objeto de amor, e é assim que reconquista sua força e o que há de melhor em si mesma. As três fadas-madrinhas, que antes representavam um bem incorruptível e um altruísmo incondicional, ainda querem ser altruístas, mas essa qualidade é carregada de leviandade e ineficácia; elas de fato se encarregam de cuidar da desventurada Aurora, mas são fúteis, atrapalhadas e imaturas demais, deixando de dar à menina a atenção necessária, enquanto Malévola, mesmo imersa no próprio ódio e no desejo vingativo, torna-se a verdadeira fada-madrinha da menina que ela mesma amaldiçoara. Uma nova fada-madrinha, não tão gentil, virtuosa ou maternal, mas amorosa e real.

Essa receita vem se repetindo inclusive em Frozen (2013), um outro grande sucesso da atualidade baseado em um conto de Hans Christian Andersen; no longa, o bem e o mal se inserem em uma mesma pessoa – no caso, tanto em Elsa quanto no ambicioso príncipe Hans. Nessa história, todos os personagens principais acertam e erram.

A idéia de que ou somos inteiramente preenchidos pelo bem ou inteiramente pelo mal, bem como a idéia do mal como uma ameaça externa e injusta parecia satisfazer a mentalidade de uma sociedade ainda recente; se somos de todo bem ou mal, há espaço para um sentimento de injustiça e de impotência; há espaço para não compreender o outro. Se formos inteiramente bons e o outro for inteiramente mal, ou seremos injustiçados ou nos sentiremos no direito de usar “uma espada da verdade” para derrotá-lo, pois temos um direito natural de prevalecer, representando o bem. A substância de que o outro é feita passa a ser digna de ser incompreendida e oprimida. A espada simboliza o poder, então, se somos bem, automaticamente temos o direito de impor o nosso poder sobre tudo o que nos parecer mau. Se há o bem puro, há o mal puro, mas ninguém quer se colocar sob a pele desse mal. Existe o mal, mas ninguém se candidata a sê-lo. Ninguém, no mundo real, quer ser a Malévola da animação de 1959, apenas a princesa injustiçada, ou o príncipe com sua alabarda.

É essa visão, ainda parcial e egocêntrica, que vem se desconstruindo em nossa sociedade.

É fato que todo e qualquer ser humano demanda compreensão. Todos queremos um holofote de compreensão para nossos motivos, por melhores ou piores que sejam. E não há nada, em nossa complexidade, que nos dê mais ou menos direitos em relação ao outro – somos complexos demais. Somos todos dignos de amor, perdão e compreensão. E, no fundo, é o que todos queremos. Então, para que exatamente serviria uma espada da justiça e da verdade se todos somos igualmente imperfeitos?

A figura da fada-madrinha, normalmente representada por uma entidade idosa, maternal e com poderes fabulosos, capaz de proteger o protagonista de todo o mal, torna-se falha com a existência das três fadas atrapalhadas do filme “Malévola”. Antes, evocava uma figura de bem perfeito e de absoluta proteção – agora, evoca uma figura precária dotada de virtudes e problemas. Ela não pode mais apenas proteger de forma mágica seus afilhados, pois está imersa em si mesma e nas próprias limitações. E o afilhado deve superar essas limitações e sobreviver apesar disso.

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Uma fada-madrinha padrão – a da animação “Cinderela”.

A figura do príncipe encantado também muda. Se o bem e o mal habitam cada um de nós, como pode o príncipe ser mais capacitado para nos salvar do que nós mesmos somos de fazê-lo? Nós temos o bem de que precisamos, e ele, o mal que ele mesmo precisa superar a respeito de si. Deixamos de depositar no outro a resolução para nossos problemas e evoluímos juntos.

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O príncipe em seu cavalo branco.

A figura da bruxa malvada não é mais tão fatalista, determinista e opressora quando podemos compreendê-la. Ela é mutável. Ela busca o seu lugar no mundo. Assim como todos nós.

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A bruxa má da Branca de Neve.

Ninguém é tão puro, perfeito ou frágil como uma princesa. Não seria triste se nosso destino dependesse exclusivamente das vontades de outro, tanto para as coisas boas quanto para as ruins?

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Branca de Neve, uma das primeiras princesas Disney e a mais tradicional.

E o destino vira também aprendizado. A maldição é uma missão a ser superada, quando temos em nós o poder de compreender o próximo.

Essas figuras maternais e paternais que preenchem os contos de fada por meio dos protetores, salvadores e opressores passam a habitar não mais figuras externas, mas todas as personalidades existentes em nosso espírito, e passa a caber a nós mesmos encontrar a chave para mudar a nossa constituição e compreender nossa história e a história do mundo.

Estamos vivenciando um novo paradigma. De repente, mesmo os contos de fada – embelezados ao final da Idade Moderna com suas personalidades idealizadas boas ou más – parecem satisfazer cada vez menos uma população mais disposta a encontrar em si as conseqüências do amor e do sofrimento. Compreender que não há uma essência maléfica pura ou eterna é compreender o dinamismo e a complexidade da personalidade humana e assim amadurecer; é aceitar recomeços e falhas em si e nos outros, e saber a importância do perdão. É entender que não há bem ou mal, e sim matizes que mais demandam compreensão e respeito do que julgamento. É equilibrar o sentimento e a racionalidade e assim construir uma sociedade justa, receptiva e amorosa.

Bárbara Bastos

MISCIGENAÇÃO

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Foi andando um dia no metrô de Paris que tive um insight ao ver um casal que assim se apresentava: um rapaz negro, com uma moça japonesa e um bebê de colo, nem sei como dizer, com uma carinha japonesa colorida de marrom!

Eu estava estudando psicanálise transcultural e escrevendo sobre o Banzo, a melancolia do imigrante. Fiquei pensando nesta coisa maravilhosa que está acontecendo no mundo moderno!

O mundo está se misturando!

Penso que é isso mesmo que Deus espera de nós! Esta miscigenação,  fruto da globalização, é na verdade o início de uma raça única: todos seremos irmãos mistos, sem barreiras, um dia!  E para todos, tem sido a condição inevitável do processo evolutivo.

Nós, aqui no Brasil, estamos um pouco mais acostumados com tantas misturas, pois o processo se deu mais rapidamente nos países menos desenvolvidos, já que não tínhamos muito a perder.

Para o velho mundo, há muita resistência que gera dor. Tudo começou em 1347 quando um navio vindo do Oriente aportou em Gênova, na Ligúria, trazendo a peste que em poucos meses trouxe a morte e o terror à Europa, dizimando metade da população e deixando marcas profundas na outra metade.

Tempos depois, as grandes navegações saídas da Europa trouxeram para os novos continentes todas as misturas possíveis. E desde então nunca mais parou. Pessoas de todos os cantos se intercambiam e se misturam. Hoje estamos vendo o mundo se misturar em função das facilidades tecnológicas que têm possibilitado as migrações em massa. Se antes eram migrações forçadas, inaugurando uma raça de pessoas depressivas, hoje, grande parte das pessoas que migram, o fazem por desejo de sair e conhecer o mundo, ter experiências em novas culturas e, quem sabe, novas oportunidades de melhorar sua condição social.

Mas tudo isso tem tido um preço. As sociedades estão confusas, caóticas, e às vezes revoltadas. Mas, porque? Porque é tão difícil viver a mistura das raças?

Se por um lado, as grandes navegações mexeram com a imaginação das pessoas e seu desejo de conhecer o desconhecido, também trouxeram doença, guerra e  escravidão.  Trouxeram a melancolia. Trouxeram o medo e o pânico de tal forma que os países fecharam suas fronteiras, uma a uma.

Hoje ainda podemos observar com que dificuldades os imigrantes se deparam quando desejam se instalar em países que não os seus. Principalmente se saem dos sub para os super desenvolvidos. As barreiras são políticas e também pessoais. Estamos assistindo o preço alto que a Europa tem pago ao tentar sua unificação econômica. Pois bem, a mistura não se dá de forma simples!

É compreensível que pessoas que estão bem, com sua vida estabelecida, em suas cidades e países onde tudo vai bem, onde não há fome, não há mendicância, não queiram, de jeito nenhum, serem “invadidas” por um monte de gente que vem de lugares ainda pouco desenvolvidos: arruaceiros, bagunceiros, questionadores, querendo para si um quinhão do que é bom!

Mas também não é justo que parte dos Homens tenham tudo do bom e do melhor, com luxo e riqueza, enquanto outros lutam para ter o mínimo para manter sua sobrevivência. Por isso o mundo se mistura. O preço é alto, mas terá que ser assim.

E para sermos coerentes com o nosso modo de pensar, teremos que acreditar que  tudo está caminhando como deve ser. E o futuro será melhor que o passado.

As sequelas deste intercâmbio promovem uma sociedade caótica, porém, certamente é o meio do caminho. Todos nós teremos que “tratar” destas sequelas. O tratamento terá que ser através de uma mudança de paradigmas tão intensa que curará o mundo!

Já disse em outros textos que será preciso, no futuro, que ciência e espiritualidade se misturem para que nos aproximemos ainda mais da verdade de Deus, certo?

Então, é a isso que me refiro: temos que ter a mente aberta e flexibilidade para aceitar e integrar as diferenças! Não importa a cor, a raça, a opção sexual: somos todos irmãos!Teremos que misturar ciência e  espiritualidade.

Quero dizer aqui que não se trata de religiosidade. Trata-se de uma mistura de conhecimentos adquiridos ao longo dos tempos pela raça humana e que servirá como suporte ao novo paradigma.

Quanto à religiosidade: taoísmo, budismo, induísmo, catolicismo, umbanda, etc…Juntas e abertas, para que a sabedoria seja fruto dos conhecimentos interligados que nos aproximem ainda mais dos propósitos Divinos!

Devemos usufruir do livre arbítrio e usar o que quisermos nesta vida, desde que seja para bons propósitos e que  nos aproxime uns dos outros no aprendizado do amor!

Aliança entre ciência e espiritualidade, entre razão e fé:  duas alavancas da inteligência humana; uma revela as leis do mundo material e a outra as leis do mundo moral; mas uma e outra, tendo o mesmo princípio que é Deus, sem se contradizer; sem serem  a negação uma da outra, porque Deus não pode querer destruir sua própria obra. A incompatibilidade que se acreditava ver entre essas duas ordens de idéias, deve-se a um defeito de observação e a muito de exclusivismo de uma parte e da outra; daí um conflito de onde nasceram a incredulidade e a intolerância.

Estamos no momento  em que os ensinamentos devem se complementar; em que o véu, lançado propositadamente sobre os Homens despreparados, deve ser levantado; em que a ciência, deixando de ser exclusivamente materialista, deve inteirar-se do elemento espiritual, e em que a espiritualidade, cesse de menosprezar as leis orgânicas e imutáveis da matéria. Essas duas forças, apoiando-se uma sobre a outra, e andando juntas, se prestarão um mútuo apoio.

Então a espiritualidade, não recebendo mais o desmentido da ciência, adquirirá uma força inabalável, porque estará de acordo com a razão, e não se lhe poderá opor à irresistível lógica dos fatos.
Ciência e a espiritualidade vem podendo se entender hoje, porque, não estão  mais cada uma examinando as coisas sob seu ponto de vista exclusivo, que faziam se repelir mutuamente. Algo se anuncia para preencher o vazio que as separava, um traço de união que as aproxima; esse traço de união está no conhecimento das leis que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo corporal, leis tão imutáveis como as que regem o movimento dos astros e a existência dos seres. Essas relações, cada vez mais, constatadas pela experiência, têm trazido uma nova luz : a fé se dirige à razão e a razão não tendo encontrado nada de ilógico na fé, o materialismo estará sendo vencido.

As pessoas que permanecem para trás, estas serão arrastadas pelo movimento geral e serão esmagadas se quiserem resistir em lugar de mudar. É toda uma revolução moral que se opera nesse momento e trabalha os espíritos; Vem sendo elaborada durante a estada do Homem  no planeta, e agora se aproxima do seu cumprimento, e vai marcar uma nova era na humanidade.

As consequências dessa revolução são fáceis de prever: deve trazer nas relações sociais, inevitáveis modificações, às quais não está no poder de ninguém se opor, porque são inerentes ao processo evolutivo e resultam da lei do progresso, que é uma lei irrevogável.

Assim tem sido e assim continuará a ser!

Recebei, Senhor, esta Hóstia total que a Criação, movida por vossa atração, vos apresenta à nova aurora. Este pão, nosso esforço, não é em si, eu o sei, mais que uma degradação imensa. Este vinho, nossa dor, não é ainda, ai de mim, mais que uma dissolvente poção. Mas, no fundo dessa massa informe, colocastes – disso estou certo, porque o sinto – um irresistível e santificante desejo que nos faz a todos gritar, desde o ímpio ao fiel: “Senhor, fazei-nos Um!” – Teillard de Chardin.

Carmem Farage