Month: August 2014

Gosto se discute?

Bem, descobri, por meio de um sábio amigo, que, quando meus ouvidos ficam invictos a músicas desagradáveis, as que grudam acabam sendo as boas!

Sim, eu sou chata com música ruim. E o que é música ruim? Música que me desagrada. Fim.

Na realidade, meu ponto de vista é um pouco mais complexo. Eu questiono seriamente nossos gostos, nossas preferências, ao contrário da famosa frase “gosto não se discute”. Porque tenho o péssimo hábito de questionar todo e qualquer senso comum.

Muitas pessoas possuem uma estranha mania de tornar verdade absoluta sentenças quase aleatórias e, a partir de uma quantidade de likes culturais, aquilo passa a ser uma verdade absoluta.

Bom, não sei se porque estou assistindo a “O Sorriso de Mona Lisa” ou porque sou assim – ou se estou vendo justamente “O Sorriso de Mona Lisa” porque sou assim -, dispenso adotar verdades absolutas sem questionar uma por uma. Até o infinito.

E além.

Enfim, eu tenho acreditado na existência de três etapas de superação de um preconceito:

– Aceitação racional (compreensão);

– Aceitação emocional (empatia);

– Absorção (identificação).

  1. Quando eu me convenço, por exemplo, de que funk é música por vias racionais, ou seja: quando, lendo sobre conceito de arte, de livre expressão, eu percebo que existem várias formas artísticas e que todas expressam sua cultura, e estudo um pouco de antropologia, sociologia, psicologia e, por que não, História, eu me descubro em um contexto social que me propicia repudiar o funk, mas que o fato de eu ser esse sujeito não impede universalmente esse estilo de existir e de ser uma forma musical. E que pode até haver argumentos musicais contra o funk, mas isso seria de um conhecimento artístico próprio de musicistas isento de paixões (em teoria).

Mas eu ainda posso rir das piadinhas que fazem a respeito de funk.

  1. Quando eu deixo de sentir a necessidade de zoar o funk, ou de rir de piadinhas, ou ainda, quando deixo de procurar uma reação aversiva a seu respeito ou a respeito de quem curte, é porque, emocionalmente, eu compreendi o que enxerguei intelectualmente. Eu diria que isso é uma superação gigante, não total, mas quase, bem quase.

Porque é um preconceito que deixa de me pertencer. De repente, zoar o funk não faz mais sentido pra mim porque, no meu universo, é um estilo como qualquer outro – mesmo eu não curtindo. Eu não pertenço mais ao universo do preconceito, e atesto isso emocionalmente. Eu não sinto necessidade de discriminar – no sentido pejorativo – algo com o qual não me identifico. Reconheço sua existência, mesmo longe de mim. Rir ou encontrar outras camuflagens para menosprezar se torna desnecessário porque já não está mais em mim essa visão da realidade.

  1. Quando, além de empatia, eu sentir simpatia, uma identificação, eu terei superado totalmente o preconceito. Esta não é uma etapa, digamos, “obrigatória” porque somos sujeitos contingentes, então fatalmente deixaremos de nos identificar com certos aspectos e nos identificaremos com outros. Isso é constituição de nossa identidade.

Eu ainda estou na fase 2. E não sei se, no exemplo dado, chegarei à fase 3. E, no caso do exemplo citado, não me parece necessário.

Acho muito importante seguir esses passos para garantir a compreensão do outro em sua forma verdadeira, pura, sem hipocrisia e, ao mesmo tempo, compreendendo que essa coisa pode ser externa a você, mesmo que você se identifique com ela depois.

Talvez eu não precise, para me tornar melhor como ser humano, me identificar com funk. Mas penso que existem muitas preferências que adquiri com o tempo por querer romper paradigmas. E penso que há muitas outras dignas do mesmo caminho.

Quero enfatizar que existe um grande problema social quando não é atingido o passo número 2. Normalmente, é quando se possui a noção intelectual de uma idéia, mas se foge a ela na hora da brincadeira. Exemplo: piadas preconceituosas, apoiar a homossexualidade na teoria, mas censurar na prática.

Acho que, no fundo, dizer que “gosto não se discute” é a última defesa de quando não se quer assumir preconceitos e paradigmas. O gosto é a instância mais profunda na constituição do eu e de nossas diversas formas de enxergar o mundo.

Gosto se discute, sim. Gosto se muda. Discussões e mudanças libertam.

Muitas Vidas, Muitos Mestres – Brian Weiss

Resenha do livro de Dr.Brian Weiss, psiquiatra e neurologista – Universidade de Columbia, Nova York (1966). Faculdade de Medicina de Yale (1970).

[Foi feita em slides por meio do Power Point e diretamente transcrita no site]

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Primeira consulta

Em 1980, quando estava com a vida bastante estável, O Dr. Brian Weiss conheceu a paciente Catherine de 27 anos.

Ainda na sala de espera ele pode perceber que se tratava de uma mulher bastante atraente que estava muito tensa e ansiosa.

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Paciente Catherine:

  • Filha do meio de uma família católica que vivia em uma pequena cidade de Massachusets.
  • O irmão mais velho era forte e tinha liberdade e a irmã mais nova era a preferida dos pais.
  • Sua vida era cheia de temores a ponto de ir dormir dentro de um armário. Tinha pesadelos, crises, sono leve e depressão.
  • Mãe: sofria de depressão e já tinha feito tratamento com eletrochoques.
  • Pai: alcoolismo.
  • Teve namorados. Sentia dificuldade de confiança.
  • Círculo pequeno de amizades.
  • Católica.
  • Profissão: laboratorista

Início da Terapia

A paciente não se recordava de nada tão relevante a ponto de justificar seu sintomas.

Após 18 meses de psicoterapia, a ansiedade continuava.

A paciente recusava remédios por medo.

Após a experiência de achar familiar algumas peças egípcias a ponto de corrigir o guia do museu, Catherine concordou em realizar a “hipnose”(estado alterado de consciência) para lembrar incidentes ha muito esquecidos.

Estado alterado de consciência:  um estado de concentração focalizada.

O Dr. Brian realizou então uma regressão.

A paciente  se lembrou de fatos traumáticos na infância tendo como fato principal o pai tê-la tocado quando tinha 3 anos.

Mesmo depois destas lembranças os sintomas não melhoraram.

Na segunda regressão ao obedecer à ordem do psiquiatra de voltar para a época em que surgiram os sintomas ela se viu como Aronda, 18 anos, em 1863 a.C. e em seguida foi se lembrando de outras vidas.

O Dr. Brian ficou perplexo com o que estava acontecendo sem conseguir encontrar explicações. Ao dar este comando ele achou que ela se lembraria de algum fato da infância, mas não de outra vida.

Já nesta primeira regressão, os sintomas de Catherine começaram a diminuir.

Pesquisa do médico

Dr. Brian releu o livro do curso de religiões comparadas e descobriu que as referências sobre reencarnação haviam sido suprimidas ao antigo e do novo testamento para não enfraquecer o poder crescente da igreja.

Novas sessões forma realizadas com lembranças de mais vidas que incluíam a presença de pessoas presentes na vida atual da paciente inclusive o próprio Dr. Brian.

O Dr. Brian a levava até o momento da morte procurando por um único acontecimento decisivo e traumático que pudesse ser a causa ou explicar seus sintomas na vida atual.

Ele sabia que pessoas poderiam ficar traumatizadas até por sonhos.

Ele ainda não compreendia que o martelar constante e diário de influências corrosivas pode causar traumas psicológicos ainda maiores do que um único fato traumático.

Com as sessões a paciente foi se revelando cada vez mais intuitiva e mediúnica acertando inclusive os vencedores em corridas de cavalos.

Começou também a revelar lições posteriores a morte, do estado intermediário tais como:

  • Nossa tarefa é aprender para nos tornarmos à semelhança de Deus através do conhecimento. Sabemos pouco. Você está aqui para ser meu professor. Tenho muito o que aprender. Pelo conhecimento nos aproximamos de Deus e então podemos descansar. Depois voltamos para ensinar e ajudar os outros”.
  • Ela então identificou os mestres, almas altamente evoluídas.

Experiência de morte

Nas regressões realizadas os conceitos de morte e pós-morte mudavam muito de uma vida para outra mas a experiência de morte em si era muito uniforme.

Uma parte consciente deixava o corpo, flutuava no alto e depois era atraída por uma luz maravilhosa e energizante. Alguém vinha ajudar e a alma seguia automaticamente o seu caminho.

Em uma sessão Catherine recebeu uma mensagem dos mestres  dizendo que o pai e o filho pequeno do médico estavam ali.

Ela deu detalhes como nomes e a causa da morte do filho bebê dizendo que e alma dele era muito evoluída e que ele tinha vindo para pagar dívidas dos pais mostrando que a medicina tem limites.

Isso fez com que o medico não tivesse mais dúvidas da veracidade de tudo aquilo que estava acontecendo.

Depois disso a vida do médico nunca mais foi a mesma. Ele foi notando melhoras de comportamento nele mesmo.

Estava mais calmo, tinha menos medo de perder os outros, menos obsessivo. A mente ficou aberta para novas possibilidades. Se sentia mais calmo e paciente e estava perdendo o medo da morte.

O médico passou a esperar sempre o momento de conversar com os mestres. Inicialmente, a paciente não se recordava das mensagens dos mestres.

A cada sessão, a capacidade mediúnica de Catherine foi aumentando e ela se tornou mais intuitiva.

Mensagem dos mestres

Exitem muitas dimensões.

Cada plano é um nível de consciência superior.

O plano para onde vamos depende do quanto progredimos.

Devemos dividir o nosso conhecimento com os outros.

Temos mais capacidades do que usamos.

Alguns descobrem isso antes dos outros. Devemos avaliar nossa próprias imperfeições antes de atingir este ponto. Se não fizermos isso, vamos carregá-las para outra vida.

Só nos podemos nos libertar… dos maus hábitos que acumulamos no estado físico. Os mestres não podem fazer isso por nós. Se preferir lutar e não se libertar, você as carregará até a outra vida.

Só quando resolvemos que somos fortes o bastante para dominar os problemas externos nos livramos deles na vida seguinte.

Devemos nos aproximar não apenas de pessoas com vibrações iguais ás nossas. Temos que nos aproximar de pessoas com vibrações contrárias para ajudar.

Devemos seguir os poderes intuitivos que recebemos sem resistir.

Alguns possuem mais poderes porque os foram acumulando em outras épocas. Um dia atingiremos um ponto em que seremos todos iguais.

Pessoas em coma estão em estado de suspensão. Só irão atravessar se acham que não  têm mais nada para aprender no estado físico. É um período de repouso, um tempo de descanso para seus poderes mentais. Elas decidem se voltam ou não.

Assim como as dívidas, carregamos as capacidades para outras vidas.

Cada um deve se preocupar consigo mesmo, em se tornar completo.

“Não temos o direito de interromper tão brutalmente a vida das pessoas antes que elas tenham vivido o seu carma. Quando morrerem e forem para outra dimensão irão sofrer, não estarão tranqüilas. Elas voltarão para uma vida dura e terão que compensar aqueles a quem magoaram”.

Escolhemos quando vamos entrar em nosso estado físico e quando vamos deixá-lo.

O caminho de todos é basicamente o mesmo. Precisamos aprender certas atitudes. Caridade, esperança, fé, amor.

A recompensa vem do fazer sem esperar nada… desinteressadamente.

Não abusar. Não fazer coisas em excesso.

As vidas são medidas não em anos, mas em lições e tarefas realizadas.

Não se pode apressar a vida, ela não funciona em horários fixos. É preciso aceitar o que nos chega no momento, sem pedir mais.

A vida é eterna. Não morremos, passamos por fases diferentes. Não há fim. O ser humano tem diversas dimensões.

É preciso erradicar o medo de suas mentes. É uma perda de energia quando existe o medo. Impede que realizem aquilo para o que foram enviados.

Energia. Tudo é energia.

O estado físico é anormal. O natural é o estado espiritual.

Pelo conhecimento nos aproximamos de Deus.

É preciso sentir na carne para atingir alguns níveis de aprendizado. Precisamos sentir a dor.

Largamos um corpo de bebê, passamos para o da criança, daí para o do adulto, até envelhecermos. Por que não poderíamos dar mais um passo, abandonando o corpo adulto e seguindo para o plano espiritual?

Resultados do Tratamento

Melhora significativa dos sintomas da paciente (com 3 meses e meio de tratamento).

O médico aumentou sua capacidade de curar casos de fobias, ansiedades, tristezas, morte a aconselhamento.

O próprio terapeuta mudou de paradigma. Ficou com a mente mais aberta.

A experiência do tratamento de Catherine fez com que um renomado médico mudasse seu jeito de pensar . E o mais importante foi a CORAGEM do terapeuta de divulgar seus achados.

Conclusões

Com esta divulgação  milhares de pessoas foram beneficiadas direta e indiretamente.

Outros terapeutas viram o caminho aberto e passaram a divulgar experiências semelhantes.

Mesmo os que não tiveram experiência deste tipo, viram uma nova possibilidade.

Novos terapeutas de regressão foram treinados e hoje atendem milhares de pacientes.

Os pacientes têm melhoras significativas e modificam para melhor a vida dos outros ao seu redor.

Milhões de pessoas aumentaram seu conhecimento sobre o “mundo” espiritual .

Com a cura das pessoas, o mundo inteiro está evoluindo.

Este livro é mais um prova de que tudo o que estamos estudando e vivenciando é verdadeiro e de extrema importância.

Não poderia, portanto, haver contribuição maior para a evolução da humanidade.

Amanda Gontijo

Cloud Atlas: o novo velho caminho para a espiritualidade (parte 2)

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Conforme afirmei no primeiro post, estou fazendo uma seqüência de reflexões sobre alguns aspectos de Cloud Atlas. Hoje, trago a seguinte impressão:

O filme demonstra que, nas existências, não existe começo ou fim.

Para o espectador atento, não existe uma ordem cronológica entre as histórias; nenhuma das épocas mostradas está no começo ou no fim – todas estão conectadas, e nenhuma começou antes da outra. Formam um elo que não é linear.

São cerca de seis histórias, que resumirei:

Sul do Oceano Pacífico, 1849: no meio do século XIX, acompanhamos a jornada do advogado idealista Adam Ewing, que sofre de uma doença em plena viagem de retorno a São Francisco. O que ele não percebe é que o médico que o acompanha é também o responsável pelo surgimento de sua doença – médico que, ao se apresentar ao advogado, estava diante de um admirável achado, desenterrando na praia resquícios de uma antiga civilização canibal, os Kona.

Grã-Bretanha, 1936: Acompanhamos a jornada de Robert Frobisher, um musicista inglês que quer compor uma obra-prima (o sexteto de Cloud Atlas); ele possui um passado escandaloso e, enquanto se inspira para compor a música, lê distraidamente um livro encontrado na casa de seu patrão – um livro que conta as aventuras de Adam Ewing. Nesse meio-tempo, troca cartas com seu amante, Ruffus Sixsmith.

São Francisco, 1973: a jornalista Luisa Rey se insere em um intrigante caso de conspiração que envolve uma usina nuclear, arriscando a própria vida para obter a verdade. Guiando-se pelos ensinamentos do falecido pai, ela é iniciada nessa aventura por meio de um encontro acidental com o físico nuclear Ruffus Sixsmith, que foi amante de Robert Frobisher. Ao longo dessa jornada, ela se depara com as cartas românticas que Sixsmith recebera de Frobisher e procura voluntariamente o Sexteto.

Reino Unido, 2012: para escapar das ameaças dos irmãos do agressivo e mafioso Hoggins, o editor e escritor Timothy Cavendish pede proteção ao próprio irmão que, em retaliação por uma antiga traição sua, interna-o em um hospício, de onde o editor tenta escapar juntando-se a outros internos. Nesse meio-tempo, sendo um editor, escritor e um bom leitor, ele acaba lendo um manuscrito da história de Luisa Rey.

Nova Seoul, Coréia do Sul, 2144: acompanhamos a luta de Sonmi-451, um clone geneticamente fabricado para trabalhar em redes de fast-food; ela foge auxiliada pelo rebelde Hae-Jo Chang, e quando descobre que fim levam suas irmãs clones devido à segregação vivida por sua classe, decide se manifestar, lutando pela mudança do paradigma vigente. Ela, livre de sua função de nascença, que é ser garçonete-clone, depara-se com um mundo novo que a deslumbra; acaba adquirindo saberes desse mundo, desde os mais triviais aos mais filosóficos, incluindo uma adaptação cinematográfica da secular história de Timothy Cavendish.

Grande Ilha, 106 invernos após A Queda: em um mundo pós-apocalíptico, Zachry vive em uma sociedade conhecida como “O Vale”, que louva a figura de Sonmi, considerada uma deusa para eles, e a quem sempre pedem proteção. Sendo esse povo constantemente atacado pelos canibais Kona e visitados pelos misteriosos prescientes, Zachry é obrigado a confrontar todos os seus demônios para encontrar paz em forma de confiança e sabedoria.

Apesar da ordem em que coloquei, e de ser a ordem normalmente utilizada, podemos perceber que as histórias estão entrelaçadas; todas épocas possuem referências às outras, de modo que nenhuma veio primeiro. Isso traz uma noção de não-linearidade no tempo; ou seja, não existe tempo e espaço para o espírito.

Isso dá um nó na cabeça.

Pensemos: em que consiste exatamente o presente? O que é o presente? O momento que testemunhamos, correto. Mas que momento é esse?

Um segundo?

Meio segundo?

Uma fração de segundo?

A milésima parte de um segundo?

O segundo é uma unidade de medida – no caso, medida de tempo – e, como qualquer outra unidade, é uma convenção, um padrão originado de algum lugar para que pessoas pudessem dialogar, usando como referencial. Segundo a wikipédia, esta é a definição do segundo:

“Originalmente, o segundo deveria ser o tempo que o sol a pino leva para percorrer a distância de 1/86400 da circunferência terrestre, ou seja, 462,962 metros na linha do equador. Em 1818, juntamente com o metro, passou a ser uma unidade padrão no Sistema Internacional de Unidades (SI). Hoje o segundo é definido tecnicamente como a duração de 9’192’631’770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133.”

É a menor unidade que conseguimos acompanhar; qualquer outra menor e, portanto, mais “rápida”, é difícil de ser cronometrada pelos olhos humanos; já os minutos, mais “vagarosos”, são longos demais.

Contudo, o presente não é um segundo – existem unidades mais rápidas. O presente é um instante, um instante que nem os olhos humanos conseguem quantificar. Portanto, ele seria uma ilusão se não fosse testemunhado por nós, pela humanidade. Mas como não o quantificamos – apenas o testemunhamos – o que é considerado passado acaba se misturando ao que é futuro; se não delimito temporalmente o que chamamos de presente, como separarei o passado do futuro? Se o presente é justamente a barreira que separa o passado do futuro e não há como delimitar o que é presente, não há como delimitar o que é passado e o que é futuro.

Tudo acontece ao mesmo tempo; nosso ponto de vista é que é linear.

“Mas eu me lembro do passado, do que aconteceu ontem.”

A lembrança, que é o que obtemos quando evocamos nossa memória, é um registro que muito difere de qualquer acontecimento histórico; sempre que evocamos uma lembrança, nós a moldamos, nós a adaptamos de acordo com o presente – ela nunca representa um passado histórico. É útil, mas não representa o passado. Ela é uma miscelânea de experiências em um outro tempo com outras que acrescentamos, ou seja: ela mescla passado, presente e futuro.

Para quem acredita que nossa consciência é energia, e que essa energia é o que chamamos de espírito – e que é essa energia que abandona o corpo após a morte -, como pensar em carmas, em causa ou conseqüência, se tudo é tão desordenado? Como pensar em um fardo a ser carregado se não há passado? Sem passado, de onde veio o carma?

Acredito que justamente por isso devemos repensar o conceito de carma e retirar dele todo o peso e a culpa que a maioria das religiões ajuda a reforçar na sociedade. O que é, afinal, o carma?

Diria que o carma é tão temporário quanto sua pronúncia. Ele é a compulsão à repetição. E pode romper tão rápido quanto matéria pode se tornar energia. Talvez o vejamos como um fardo justamente porque vivemos a linearidade e a incompreensão de se viver em um mundo tridimensional – mas o tempo não é tão vagaroso para a mente. E é por isso que o fardo não precisa ter esse nome.

Por exemplo, alguns personagens reencarnam ora como assassinos ambiciosos, ora como pessoas que enfrentam corajosamente a própria ignorância e encontram o amor em si e, portanto, no mundo – um mesmo espírito desempenhando papéis diferentes! Mas, se não há um passado ou um futuro absolutos, como falar em carma? Como falar em evolução? Se evoluir é tornar algo melhor do que antes, qual é o ponto de partida para essa mudança? Certamente não é o passado.

Usamos o “passado” para facilitar nossa visão e nos dar uma esperança de mudança futura. Diante dessa “quebra” temporal, podemos perguntar qual é o caminho se não há caminho – pois não há tempo definido. E eu digo: a ausência de linearidade temporal nos remete apenas àquilo que podemos testemunhar: o presente. E só. Sem passado ou futuro.

Eu falei neste post (O Presente do Indicativo) a respeito do hábito humano de misturar os tempos e, com isso, trazer à tona rancor, depressão e angústia. Talvez a ausência de linearidade do tempo venha reforçar a necessidade de se contemplar o presente, de aproveitá-lo, de depositar nele todas as nossas possibilidades de ação – e não no futuro.

O carma não é mais um fardo, uma trouxa de roupas sujas a ser carregada nas costas por algum tempo indefinido até que ocorra a expiação; é a compulsão à repetição que fazemos aqui e agora e com a qual podemos romper em um instante. Talvez seja um longo trabalho reprogramar esses padrões em um sistema físico denso como o nosso, mas talvez deixar de misturar os tempos traga a epifania de que o presente é o que basta, e então o trabalho espiritual que realizamos é acelerado! A evolução é a abertura e a esperança que sentimos no presente. Não somos mais evoluídos do que ontem e menos do que amanhã; somos aquilo que poderíamos ter sido em nossos respectivos contextos, e nosso eu de ontem em nada deve em relação ao de hoje. O nosso eu de hoje compara-se exclusivamente a ele mesmo – o de hoje.

Devemos hoje o que podemos fazer hoje. E a paz que vivemos e a felicidade que sentimos também está no hoje. O futuro que esperamos, pelo qual sentimos esperança, está no hoje. De hoje nascemos, para hoje retornaremos.

 Bárbara Bastos

Cloud Atlas: O novo velho caminho para a espiritualidade (parte 1)

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Lançado há menos de dois anos por uma equipe de renome, Cloud Atlas (traduzido no Brasil para “A Viagem”) é um filme ousado. Longo, multifacetado, por vezes até confuso, ele coloca como objeto central as reencarnações. “A Viagem” também foi o nome de uma novela exibida nos anos 90 pela Rede Globo, no Brasil. Ela também tratava sobre reencarnações à luz do espiritismo kardecista. Pela semelhança temática, achei curioso o longa ter o mesmo nome. Eu não sei se foi a tradução mais adequada para o título do filme porque acho que a idéia não é bem essa – achei um pouco vago diante do que o longa representa. Existe uma diferença notável no modo como o tema reencarnação foi inserido – foi mais humano, menos divino. Por “humano” e “divino”, eu quero dizer que a novela teve uma grande influência do espiritismo kardecista, com o roteiro baseado em duas obras psicografadas pelo médium Chico Xavier (inclusive o conhecido “Nosso Lar”). Algumas cenas ocorrem no entre-vidas, tanto no Umbral quanto nas colônias. Ou seja, a novela extrapola o conceito existencial para o “divino”, para o desconhecido, para a vida após a morte, para a existência enquanto espírito puro. Cloud Atlas não vai por essa linha, atendo-se às vivências materiais ao longo de séculos, sem se meter no que acontece após a morte. Seu foco é apenas a reencarnação, e o quão complexa ela pode ser, inserida nessa dança do mundo pelo tempo e espaço. Estou abrindo uma série de posts para ressaltar aspectos que considerei importantes no filme, e, por isso, aviso que haverá spoilers. De antemão, não é um filme fácil. Ele é longo, por vezes confuso, e muita coisa acontece. Desde o início, percebi que precisaria vê-lo mais e mais vezes, a fim de captar detalhes que aparecem rápida e simultaneamente, como se o filme todo fosse um redemoinho. Assisti a ele três vezes e ainda acho pouco. Ele é uma tentativa sutil, quase hollywoodiana, de abrir nossas mentes – talvez seja errado eu denominar “hollyoodiano”, visto que é um filme, apesar de caro, de iniciativa independente. É como se esse filme caminhasse com a sociedade vigente, nem ousado demais e nem ultrapassado – como se pegasse grandes questões coletivas e as enfileirasse de forma nítida, apontando-as e, por meio delas, apontando conceitos existenciais do novo século. Por meio desse filme, ainda somos reféns de nossa própria contingência, mas entendê-lo é como alargar as fronteiras de nossa concepção existencial. A começar pelas polêmicas personagens interpretadas por Tom Hanks – um mesmo espírito, muitas reencarnações. Creio que o principal ensinamento destas é que ninguém é muito bom ou muito mau, e que o que chamamos erroneamente evolução é muito mais complexo e diversificado que nossa linear e pobre compreensão. O que entendemos por evolução ainda é pobre, pontual e preconceituoso demais, e ainda estamos nos libertando da idéia de punição pelos males que cometemos. E o filme, de uma forma que chamaria de laica, rompe com essa idéia. Ao longo de reencarnações, a personagem de Tom Hanks renasce como um mafioso orgulhoso e vingativo; um homem covarde e assombrado por demônios, mas capaz de recuperar a coragem por amor; um homem apaixonado que toma uma rápida decisão corajosa, revolucionária (culminando em sua morte); um médico ganancioso capaz de assassinar a sangue frio e, por fim, reencarna na figura de um galante ator; ele é um pouco de tudo. Sua personalidade em cada vida admite facetas demais, e são várias personalidades para um mesmo espírito – e também, vários padrões. As personagens de Halle Barry, Hugo Weaving e Doona Bae brincam com a possibilidade de se reencarnar sob vários sexos, várias nacionalidades, de várias formas. Acho que, para encerrar a primeira parte desse tema, eu gostaria de deixar bem claro o quão despretensiosa é essa narrativa. Pois, se a novela “A Viagem” é fortemente alinhada ao espiritismo kardecista – um dos diversos espiritismos que o planeta Terra conheceu -, Cloud Atlas parece seguir uma linha espiritual desprovida de qualquer conotação espírita ou religiosa. É como se reunisse conhecimentos mundanos, triviais, das relações humanas e extrapolasse para conceitos existenciais inacabados, plantando a semente da dúvida que germina no coração humano pensante. É um filme que se inicia e encerra com reticências, abrindo uma nova possibilidade para um velho conceito, mas sem a responsabilidade de fornecer uma resposta definitiva.

Bárbara Bastos