Month: February 2015

Entre o desejo e a responsabilidade

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Os Novos Caminhos da Floresta

Está em cartaz no Brasil mais uma versão Disney de contos de fada: o musical “Caminhos da Floresta” (Into the Woods). Ele é baseado e razoavelmente fiel à peça homônima escrita por Stephen Sondheim em 1987. Na história, um casal de padeiros descobre que não pode gerar filhos devido a uma maldição lançada por uma bruxa e, para revertê-la, precisam de quatro ingredientes, cada qual pertencente a um conto de fada distinto. São eles: um sapatinho de ouro de Cinderela, a vaca branca (e melhor amiga) de João (do conto “O Pé-de-Feijão”), a capa vermelha da Chapeuzinho Vermelho e uma mecha dos cabelos louros de Rapunzel. O cenário onde a trama se passa é a floresta e seus caminhos percorridos por essas famosas personagens, caminhos estes que se cruzam principalmente com a intervenção do casal.

Essa salada mista de contos de fada apresenta de cara uma conotação ligeiramente sombria – mas não menos fantástica – que parece ser a marca das novas adaptações de clássicos, vide versões de Branca de Neve, Alice e até Malévola. A primeira parte da história é caracterizada por uma algazarra divertida em que as histórias se cruzam; todas as personagens possuem sonhos e expressam desejos no início e, ao final da confusão, todos os desejos se tornam realidade. Cinderela finalmente fica livre do pesadelo em que vivia com a madrasta e encontra seu príncipe encantado; o pobre e sonhador João fica rico após roubar ouro do gigante que habita o topo do pé-de-feijão; Rapunzel consegue sua liberdade (e seu príncipe) após uma entediante vida na torre e Chapeuzinho, além de obter pães para levar à casa da avó, é salva do lobo mau e ainda consegue uma capa nova. E o casal de padeiros, por sua vez, consegue enfim ter um filho.

Contudo, ao longo da jornada dos desejos realizados, todos agiram e se envolveram de modo a alterar o local onde viviam. Em meio a uma série de acontecimentos, a esposa do gigante do pé-de-feijão que fora morto pelo João consegue descer de seu castelo e começa a destruir o reino, procurando o menino que causara seu infortúnio. O final feliz se desfaz quando as conseqüências das ações das personagens aparecem, bagunçando o cenário. João e Chapeuzinho tornam-se órfãos; a esposa do padeiro e o príncipe da Cinderela se beijam, traindo seus respectivos cônjuges; Cinderela descobre a traição e se separa do marido. O príncipe encantador é encantador, mas despreparado para fazer algo na vida além de espalhar seu encanto e conquistar beldades. E a esposa do padeiro morre, levando o padeiro ao desespero ao se ver sozinho no mundo com um filho nos braços.

Quando saí do cinema, o burburinho que escutei não foi dos mais favoráveis, embora algumas pessoas tenham tentando aplaudir o filme no final (sendo rechaçadas pelos zombeteiros de plantão). Alguns haviam achado genial; outros haviam achado completamente enfadonho e sem graça. A segunda metade do filme, quando o final feliz se desfaz, não deixou de surpreender quem não conhecia a história. O filme era longo e parecia ter chegado ao esperado final feliz – então veio a confusão.

INTO THE WOODS

Desde que a peça foi escrita e apresentada na Broadway, houve duas tentativas de trazer a peça ao cinema nos anos 90, mas só em 2015 houve resultados – com o apoio de um estúdio (Disney) ainda famoso por infantilizar histórias clássicas.

Não que as histórias que a própria Disney obtém já não tenham sido infantilizadas antes. Sabe-se que, a partir do século XIX – talvez um pouco antes – contos de fada medievais britânicos, franceses, alemães, holandeses foram gradualmente modificados. Na época em que foram criados, nos séculos medievais, esses contos não eram, aos nossos olhos, nem um pouco infantis ou mesmo agradáveis – não contaríamos às crianças de hoje logo de cara a versão original da Bela Adormecida, que teria sido violentada por um príncipe e gerado dois filhos enquanto enquanto dormia; e também o final de Chapeuzinho Vermelho não teria sido tão fantástico, sendo resgatada de forma tão mágica pelo caçador após ter sido engolida viva. Aliás, se observarmos esses contos com um olhar adulto – mesmo os mais inocentes – perceberemos passagens forçadas, perceberemos que havia um componente estranho e até cruel nessas histórias, e como isso foi abrandado em releituras posteriores. O olhar inocente da criança não vai se assustar com a possibilidade de Chapeuzinho ser engolida viva e assim permanecer na barriga de um lobo se, no final, for resgatada e tiver um final feliz; não será assustadora a perspectiva de dormir cem anos se, no final, o amor prevalecer com a chegada do príncipe heróico e tudo voltar ao normal como se nada de estranho houvesse acontecido.

Contudo, as histórias originais, aos olhos tanto da criança e do adulto de hoje, são assustadoras.

Podemos relacionar isso ao conceito de infância que construímos ao longo do tempo. A ciência cognitiva hoje mostra que crianças são psicologicamente diferentes de adultos, mas isso era um conceito até então desconhecido – elas até poderiam ser vulneráveis e impressionáveis como pode ser típico dessa fase, mas foi uma fase do desenvolvimento humano ignorada ao longo de séculos. Crianças eram tratadas como adultos.

A idéia de que crianças estão em desenvolvimento, de que precisam de um ambiente sadio, inocente e pacífico para crescerem em paz é absurdamente recente. Proteger crianças para que se tornem adultos honestos, empáticos, sociáveis, calmos, gentis e saudáveis é uma concepção recente. No século XIX podemos observar o surgimento desse conceito junto à infantilização dos contos de fada. E a Disney, ao se apropriar deles, deu seqüência a esse acontecimento.

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Eu já discuti Malévola/Maleficent aqui, mas quero deixar claro que, se Malévola é uma excelente lição para crianças, Into the Woods não segue o mesmo caminho, é mais adulto – e uma excelente lição para adultos. O começo do musical (embalado pelo refrão “I wish”, que significa “eu desejo”) simboliza a força propulsora da humanidade – o desejo. O desejo está por trás de nossos atos e consiste em tudo o que nos move, desde a primitiva luta pela sobrevivência às vontades que chamamos de “caprichos”. Adquirimos o hábito dualista de dividir o humano entre instinto e razão, mas é difícil demarcar qual é realmente qual e se temos de fato um “instinto”.

Mas um consenso possível é o de que somos todos seres desejantes. Nós desejamos, e o que fazemos dia a dia possui como base – como força propulsora – os nossos desejos, mesmo que a relação entre eles e nossos atos não seja tão direta e palpável.

Só que não somos princesas, príncipes, fadas, bruxas ou camponeses de contos de fada. Quando nos movimentamos rumo à realização de nossos desejos, mudamos o mundo ao nosso redor, e não somos criaturas lineares e ingênuas que conseguem se manter à parte de tudo isso. Por vezes, gostamos da idéia de que merecemos tudo o que desejamos, por mais justas e singelas que nossas vontades pareçam. Por vezes, nos colocamos como isentos de tudo o que acontece no mundo, sem papel ou impacto na sociedade.

INTO THE WOODS

É muito difícil pensar que podemos ser aquela pessoa que comete atos levianos ou egoístas demais. Detestamos estar errados. E quando assim somos apontados, é comum ignorarmos a acusação ou reagirmos agressiva e defensivamente, sem refletir sobre os danos que podemos causar.

E temos essa coisa, esse hábito de agir como se merecêssemos a realização de todas as nossas vontades e de pensar que nossos passos não deixam marcas no mundo.

Quando a mãe do padeiro, grávida, queria verduras e legumes da horta da bruxa, seu marido as apanhou – mas ele também roubou os feijões (mágicos) apenas por desejo, sem nem ao menos saber o poder que eles tinham; não era desejo da mulher e ele nada sabia sobre os feijões, apenas quis se apossar deles mesmo tendo invadido a horta de outra pessoa para roubá-los. O casal de padeiros obteve a (quase) todo custo os ingredientes porque desejavam um filho; João enfrentou diversas vezes o casal de gigantes no topo do pé-de-feijão para: obter a fartura de que tanto desejava e assim ajudar a mãe; recuperar a amiga vaca leiteira e também vencer uma aposta que fizera com Chapeuzinho – e esta o desafiara apenas por orgulho, sem medir conseqüências. A Cinderela, tão sofrida e cansada do pesadelo em que vivia, desejou desesperadamente uma mudança de vida, e concentrou-se tão fortemente nisso que deixou de refletir, agindo por impulso e cega ao mundo seu redor. Rapunzel, cansada, triste e entediada, desejando sair da torre e encontrar seu príncipe, passou a descer a própria trança com mais freqüência, de modo que a mulher do padeiro pôde roubar um pouco do seu cabelo. Sem que percebessem, contribuíram, focados em seus próprios sonhos, para o surgimento do grande obstáculo que logo se manifestaria no reino e, portanto, na floresta: a mulher gigante que desceria de um pé-de-feijão remanescente (construído por puro descuido), buscando vingança e destruindo tudo à volta.

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Os protagonistas não foram mesquinhos demais ou sábios demais e, por vezes, mostraram-se gentis com os outros e formaram amizades, mas nunca desviando-se plenamente de seus desejos. Refletiram sobre como desejavam o que desejavam e como o movimento para a consolidação do que queriam os ajudava a amadurecer, mas não consideraram a mudança que estavam causando no mundo – ou na floresta.

E tanto fizeram, tanto insistiram, tanto acreditaram que os sonhos se tornaram realidade. Normalmente, é assim que esses clássicos terminam, com a moral de que, quando realmente depositamos fé e empenho, realizamos os sonhos considerados mais insanos. Podemos sim pensar em seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã (ou antes de dormir, para os noctívagos de plantão).

É com essa lição do impossível tornando-se possível que alimentamos a mente afoita por atenção e carinho de nossas crianças. Queremos lhes mostrar que o mundo não é tão assustador quanto parece, queremos acolhê-las e demonstrar que é possível dar conta da vida. Que é racionalmente possível e provável que elas realizem os sonhos e que o principal obstáculo é o mundo emocional. Que é possível ter foco, que é possível viver.

Mas existe uma continuação nessa história que é importante recordarmos – especialmente nós, adultos: o chamado à responsabilidade. A responsabilidade é a capacidade de enxergar que a lei é de ação e reação e que, quando agimos, o mundo reage – de que forma for. Não estamos isentos. Não saímos ilesos. E causamos algum impacto, por menor que pareça. Quando nascemos, o mundo já está dado, inteiramente construído e funcional como sempre esteve até o ponto em que sabemos, e somos simplesmente atirados nele. E corremos o risco de manter uma ingenuidade a respeito: a ingenuidade de que o mundo e o eu são elementos separados, e de que nossos desejos, pensamentos e ações são “inocentes”, alheios ao mundo. Nossos erros são menos significativos, mais perdoáveis. Nunca somos egoístas, nunca magoamos outras pessoas, nunca faltamos com nossa responsabilidade. E, se o fazemos, é tão ingênuo, bobinho e perdoável que sequer salta aos nossos olhos. Temos essa idéia de que todos os nossos desejos não possuem conseqüências adversas e, quando possuem, são injustas. São uma brincadeira sádica do destino. Temos essa idéia de que temos um direito irrevogável a tudo o que desejamos.

Alimentamos tudo o que há no mundo; temos esse hábito da dualidade, de dizer que existe o bem e o mal. Pois bem: se ambos existem, é certo que todos nós, sem exceção, alimentamos ambos, inclusive o mal. Já comentei neste post que o bem e o mal são indissociáveis, na realidade, e que o mal é o bem que enlouquece temporariamente. Porém, se insistirmos nessa dissociação, devemos insistir no fato de que todos produzimos os dois.

Então, o que fazer? Parar de desejar? Censurar nossos desejos?

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O próprio filme sugere uma resposta. Quando os grandes obstáculos da vida (o gigante) provocam a confusão na floresta (a vida), apagando os caminhos marcados (o destino), as personagens encontram um novo arranjo – imprevisível, mais forte e maduro que o anterior. A Cinderela já não deseja um castelo de sonhos, contentando-se com o meio-termo entre o sonho vivido no castelo e o pesadelo oferecido pela madrasta; o padeiro, que tanto queria um bebê, vê a necessidade de cuidar dele, mesmo sozinho; o príncipe encantado revela a sua pouco atraente natureza volúvel; e João e Chapeuzinho deparam-se com a orfandade. Mas, juntos, Padeiro, Cinderela, Chapeuzinho e João, que experimentaram desgostos até então nunca imaginados, unem-se, estabelecendo um vínculo ainda mais forte que o anterior e enfrentam o obstáculo à frente. E constituem uma família. Uma família diferente de uma visão tradicional de nossa sociedade, arranjada por afinidade e não por sangue ou matrimônio.

A história, portanto, nos brinda com um chamado à responsabilidade e, além disso, uma possibilidade de superação do que a vida, em sua complexa cadeia de eventos, pode trazer. E uma possibilidade de se construírem laços afetivos distintos que transcendam os institucionalizados.

É preciso ter cuidado com o que desejamos. Enquanto não o tivermos, seremos moldados pelo destino, aprendendo e nos fortalecendo. E, quanto mais responsabilidade tivermos em relação aos nossos desejos, mais serenidade teremos em nosso caminho – por mais misterioso e imprevisível que esse caminho seja.

Bárbara Bastos