Month: February 2016

Cartas a um jovem terapeuta – resenha do livro

2223451LIVRO: Cartas a um jovem terapeuta

Contardo Calligaris discorre em seu livro sobre dúvidas e questionamentos que vêm à tona aos terapeutas que estão iniciando em sua profissão. Elenco aqui as respostas, comentários e opiniões que mais se mostraram representativas para mim.

Vocação profissional: Calligaris descreve características que indicam o perfil de um bom terapeuta: “um gosto pronunciado pela palavra e um carinho espontâneo pelas pessoas, por mais diferentes que sejam de você (pág. 9), […] uma extrema curiosidade pela variedade da experiência humana com o mínimo possível de preconceito (pág. 9), […] uma certa quilometragem rodada (pág. 10), […] uma boa dose de sofrimento psíquico (pág. 11)”, este último ponto relacionado ao fato de que o futuro terapeuta deve ele mesmo ter sido paciente durante um bom tempo. Caliigaris vai além ao reforçar questões como o fato de o terapeuta não ter que esperar gratidão de seus pacientes, especialmente porque “nenhuma psicoterapia, seja ela qual for, deveria almejar a dependência do paciente” (pág. 8).

Quatro bilhetes: Calligaris comenta o que seriam dúvidas peculiares de um jovem terapeuta. A primeira diz respeito à busca de um terapeuta sabendo que é travesti, ao que ele responde que o fato mais importante é escolher um analista em quem o paciente encontre confiança. Apesar das peculiaridades que podem conferir alguma informações ao processo, o fato mais importante é o conforto da confiança. A segunda pergunta reside na possibilidade de um terapeuta ser pedófilo, ao que Calligaris coloca que é uma fantasia incompatível ao exercício da psicoterapia ou da análise. O terceiro bilhete diz respeito ao limite do terapeuta em relação ao paciente e o autor coloca que “talvez um terapeuta ou analista não tenha nunca o que propor a quem consegue agir ou perpetrar pequenos ou grandes horrores sem que sua subjetividade esteja envolvida”. O último bilhete diz respeito à dúvida se o terapeuta deve ou não entar ensinar ou influenciar a vida do analisado e Calligaris diz que “a escolha da direção ou do caminho não deve ser decidida por uma norma, nem mesmo uma sabedoria. Espera-se que o terapeuta ou analista empurre o paciente na direção de seu desejo. Aliás, é por isso que uma terapia leva tempo, porque antes de empurrar, é preciso que esse desejo consiga se manifestar um pouco (pág. 16)”. Ele reforça, no entanto, que o terapeuta não se prenda a uma grande paixão pedagógica, para que não caia em uma encruzilhada.

O primeiro paciente: Calligaris conta como foi seu começo para inspirar um jovem terapeuta e deixa algunmas questões importantes à vista: 1) o fato de que nem sempre é verdade que os pacientes prefiram terapeutas experientes; 2) a importância de sermos nós mesmos no trato com os pacientes (não é preciso “disfarçar” o cenário para mostrar ao paciente que você atende muitas pessoas); 3) apesar de a experiência ser um fator ímpar na condução do tratamento, mas ao iniciante há outros tão importantes quanto – a curiosidade, a vontade de escutar, a felicidade em cada paciente que lhe faça confiança.

Amores terapêuticos: Nesse capítulo, Calligaris discorre sobre a possibilidade de uma paixão do analista por seu paciente. Sobre o primeiro, Calligaris mostra como é um equívoco, mas também dá sinais de como encarar o fato caso isso aconteça.

Formação A: O autor fala sobre a escolha da profissão / formação e os estudos para se formar enquanto terapeuta. Ele mostra que a formação como psicoterapeuta independe da formação inicial do estudante, e aconselha que, “se você decidir se tornar psicoterapeuta já no meio de sua vida, e sua formação acadêmica for diferente de psiquiatria ou psicologia, não volta ao vestibular e aos bancos da universidade, simplesmente comece sua formação na instituição de ensino de sua escolha. Não ser psiquiatra nem psicólogo não constitui um impedimento decisivo. Mas se você estiver decidindo se tornar psicoterapeuta na hora de escolhar a faculdade, escolha sem hesitar ou psicologia, ou medicina ou psiquiatria (pág. 29)”. Outro ponto que chama a atenção nesse capítulo é quando Calligaris coloca que “a orientação terapêutica na qual você se formou ou está se formando […] não é uma ideologia, nem uma fé na qual seria preciso que você acreditasse, nem uma espécie de dívida que você contraiu com seus mestres e que a forçaria a se fazer seu repetidor arauto e fiel (pág. 30).”

Curar ou não curar: Calligaris faz uma revisita ao que as escolas pensam sobre o assunto e coloca seu ponto de vista, com o qual concordei e tomo como minha referência também. Ele coloca que a psicanálise o interessa por sua capacidade de atenuar a dor e transformar vidas. E que o paciente na verdade tem esse nome para que nos coloquemos impacientes com o sofrimento necessario que estraga nossos dias. Tenho consciência de que é importante ter cuidado com o “furor curandis” de Freud, e tampouco devemos ser a tábua de salvação de algúem, já que o paciente é protagonista de sua história (nós, apenas o instrumento). Mas acredito que temos um compromisso com a cura na medida em que ajudamos esse paciente a adquirir e manejar instrumentos que permitam que ele mesmo conduza sua própria cura. “Uma psicoterapia é uma experiência que transforma, pode-se sair dela em o sofrimento do qual a gente se queixava inicialmente, mas aos custos de uma mudança. Na saída, não somos os mesmos sem dor; somos outros, diferentes (pág. 34)”.

O que fazer para ter mais pacientes: Mais uma vez Calligaris faz uma visita às escolas e teorias para mostrar diferentes pontos de vista e, para mim, a mensagem que ficou foi: “Seu compromisso não é ‘com a psicanálise’ ou a ‘psicoterapia’, nem com Freud, Melanie Klein, Lacan ou qualquer outro chefe de escola, nem com a instituição na qual vocês se formou. Seu primeiro compromisso é com as pessoas que confiam em você e trazem para seu consultório uma queixa que pede para ser escutada e, por que não, resolvida. Ou, mais geralmente, seu primeiro compromisso é com a comunidade na qual você presta serviços. E o compromisso é de prestar o melhor serviço possível (pág.44).” Com isso, naturalmente os pacientes aparecerão – é mais: os pacientes que deverão ser nossos pacientes aparecerão. “Para estabelecer sua clínica, vale essa máxima: se seu compromisso for com os pacientes, não se preocupe, eles vão acabar sabendo (pág. 45)”.

Questões práticas: 1) Regras – a naturalidade de colocar regras no relacionamento entre paciente e terapeuta, sendo algumas importantes, tais como de deixar o paciente à vontade para falar sobre o que precisa, um tratamento sem mecanicismos, decidir “livremente” a regra quando parecer importante com determinado paciente, não deixar com que as regras engessem um processo que é muito único de cada paciente, fazer valer a regra do silêncio para tratamentos entre casais, especialmente aqueles que se tratam com terapeutas diferentes. 2) Setting – Sobre a posição em que os pacientes se colocam no consultório, Calligaris coloca que é importante ler sobre as técnicas e conhecê-las, mas ao final a decisão é simplesmente de uma questão de conforto entre você e seu paciente. 3) Entrevistas preliminares – o autor coloca que hoje se vale de uma pergunta-chave para conduzir todo o processo terapêutico e essa pergunta reside em questionar o paciente o que ele espera quando sua terapia começa. 4) A duração da sessão – o autor sugere alguns modelos de duração da sessão para ajudar um jovem terapeuta na escolha do que será sua opção. Em todo caso, a opção dele me pareceu fruto de sua experiência, intuição e compromisso com a profissão e acredito que sejam critérios importantes a se considerar, especialmente nos momentos em que deva valer o bom-senso sobre o tempopadrão das sessões. 5) Pagamento – Mais uma vez ele mostra diferentes modelos e aquele que entende como o mais adequado para ele. Entendo que o pagamento é importante e que as regras devem ser estabelecidas junto ao paciente, já que o terapeuta vive desse dinheiro, mas o dinheiro não pode nunca ser superior à ética de compromisso com o tratamento do paciente. 6) Supervisor – Calligaris aponta o que deve ser levado em conta na seleção de um supervisor, sendo a inspiração de confiança o fator-chave no processo de escolha.

Conflitos inúteis: nesse capítulo, Calligaris mostra alguns dos conflitos entre escolas, teorias e profissionais (inclusive de outras áreas como a medicina, neurociência, etc) que não acrescentam nada ao processo terapêutico. Para mim, um bom resumo desse capítulo é a frase de Carl Jung em que ele coloca: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. Entendo que precisamos deixar claro para o paciente que ele não deve interromper nunca seu tratamento físico e rotineiro com os médicos, pois não atuamos nessa esfera. Mas devemos mostrar que ele é, com sua mente, o principal causador das mazelas que sofre.

Infância e atualidade, causas internas e causas externas: o autor comenta que o esforço de voltar ao passado só deve ser feito quando precisamos reinventar o sentido de uma história e para amenizar o medo do futuro, com o objetivo de devolver esse acontecimento ao justo lugar que pertence na vida do paciente. Como a terapia lumni tem na regressão de memória (inclusive a vidas passadas) um de seus pilares, acreditamos que quem define isso é o inconsciente do paciente, que nos permite acessar às informações necessárias no momento pertinente. Mais que isso, para nós a regressão é importante instrumento para acesso à fonte de informações inconscientes que modelam e determinam muito de nosso comportamento.

Que mais?: Calligaris faz suas observações finais e cuidados que devemos ter ao escolhermos essa profissão. A passagem que mais me chamou a atenção, que levo comigo e com a qual fecho essa resenha é a seguinte “Com seus altos e baixos, imagine nossa vida como uma breve passagem por um circuito de montanhas-russas. Quem atravessasse a experiência anestesiado, sem gritos, pavor e risos, teria jogado fora o dinheiro do bilhete. Tenho a ambição, ao contrário, de ajudar meus pacientes a viver de tal forma que, chegando o fim, eles possam dizer que a corrida foi boa (pág. 67).

Juliana
Juliana

Juliana Navarro. é terapeuta Lumni e atende na cidade do Rio de Janeiro ou on-line através do skype.

Escreve para o site Espaço Sinteno. Conheça o site de Juliana.